Apenas 18+. Jogue Responsavelmente.
Eu estava com o canhão apontado para um tamboril quando o lado esquerdo do oceano ficou laranja.
Não teve aviso sonoro. Não teve luz especial. Primeiro passou um tentáculo por trás do coral. Depois outro. Aí entrou a cabeça inteira do Rei do Oceano, olhando para a tela com a tranquilidade de quem já tinha atravessado milhares de canhões e sabia exatamente quantos tiros um jogador aceita desperdiçar antes de perder a dignidade.
O tamboril continuava na frente dele.
Atirei mesmo assim.
O primeiro disparo pegou no tamboril. O segundo acertou um Peixe-Anjo Gigante atravessando por baixo. O terceiro encontrou um pedaço de tentáculo tão grande que devia ter correnteza própria.
Vieram bolhas. Vieram clarões. Vieram moedas que ainda não eram minhas.
O Rei do Oceano continuou nadando.
Mantive o canhão em R$0,50 e acompanhei o olho dele com a mira. Foram doze tiros correndo atrás daquela cara laranja enquanto ele seguia para a direita. Cada impacto fazia o corpo piscar, mas o ritmo não mudava. Parecia que eu estava jogando pedrinhas num polvo que tinha compromisso do outro lado do recife.
Um Peixe-Palhaço Dourado entrou no meio do caminho.
Foi capturado.
O Rei sumiu atrás de uma pedra.
O peixe-palhaço pagou uma coisinha.
Aquilo não teve gosto de prêmio. Foi o recife colocando um trocado na minha mão para eu parar de perguntar pelo polvo.
Deixei o canhão quieto por alguns segundos. Os peixes comuns retomaram suas rotas. Peixes-anjo vieram por baixo. Um tamboril passou lá em cima, todo boca, testa e nenhuma urgência. Cardumes pequenos cortaram o centro em formação perfeita, muito mais coordenados do que qualquer decisão que eu tinha tomado desde o primeiro tentáculo.
A roda de bônus permanecia apagada na lateral.
Bonita, colorida, cheia de setores dourados e completamente ausente da confusão.
Voltei a escolher melhor os alvos. Peguei alguns peixes pequenos. Um Peixe-Anjo Gigante tomou tiro suficiente para eu começar a desconfiar que “gigante” não era o tamanho dele, mas a quantidade de munição necessária para convencê-lo a soltar moeda.
Quando finalmente estourou, devolveu uma parte do que eu já tinha despejado no Rei.
Uma parte bem educada. Pequena. Quase tímida.
O mar ficou vazio perto do coral superior direito.
Outro tentáculo apareceu.
Ele tinha voltado.
Dessa vez, vindo da direita para a esquerda.
Subi o canhão para R$1,00 antes que a parte responsável do meu cérebro conseguisse chegar perto do botão.
O Rei do Oceano entrou mais perto, ocupando o corredor central. A cabeça cobriu metade dos peixes ao redor. Os tentáculos varreram o fundo. Não parecia um alvo entrando numa armadilha. Parecia o dono do aquário fazendo uma visita.
Comecei a atirar antes de a mira parar.
Um Peixe-Anjo Gigante cruzou o rosto dele e levou os dois primeiros disparos. Um cardume minúsculo recebeu a rajada seguinte. O tamboril voltou e estacionou a própria testa dentro da mira, assumindo oficialmente o cargo de escudo real.
O Rei avançava atrás deles.
Acionei o Torpedo.
A água explodiu no centro da tela. Luz, bolhas, impacto, peixe voando para todos os lados. Durante um instante, o recife inteiro pareceu ter entendido que o polvo precisava sair dali.
O Torpedo capturou peixes.
O Rei do Oceano continuou.
Um Peixe-Palhaço Dourado virou moedas perto dos tentáculos. Dois peixes-anjo desapareceram no clarão. O polvo atravessou a explosão com a mesma cara com que tinha entrado, carregando meus tiros no couro e nenhuma intenção de colaborar.
Foi ali que Mega Fishing deixou de ser pescaria.
Aquilo já era uma perseguição submarina em que todos os moradores do recife tinham escolhido o lado do polvo.
Acionei a Railgun.
Uma faixa branca cortou o oceano.
O Rei sumiu dentro da luz. Os tentáculos tremeram. A água brilhou ao redor da cabeça. Moedas começaram a aparecer na parte de trás do disparo, e eu me inclinei para a tela porque, finalmente, aquilo parecia captura de verdade.
A Railgun tinha pegado um peixinho atrás dele.
O Rei saiu do outro lado inteiro.
O peixinho pagou um valor que não cobria nem a empolgação que eu tinha acabado de gastar.
A roda de bônus continuava apagada.
Os setores laranja e dourados estavam todos ali, arrumadinhos, esperando uma sessão que claramente não era a minha.
O Rei se aproximava do limite esquerdo. Pela primeira vez, havia água limpa entre a cabeça dele e o coral. Nenhum peixe-anjo. Nenhum tamboril. Nenhum peixe-palhaço disposto a atravessar a mira para salvar a monarquia marinha.
Acionei Frozen.
Uma luz azul tomou a tela. Os cardumes pararam. As bolhas ficaram suspensas. O Rei do Oceano congelou no centro, com um tentáculo levantado, como se o próprio mar finalmente tivesse mandado ele esperar.
A mira ficou parada na testa.
Atirei.
O primeiro disparo entrou.
Depois outro.
Mantive o canhão de R$1,00 batendo exatamente no mesmo ponto. O corpo piscava a cada impacto. O gelo rachava ao redor dos olhos. Moedas brilhavam perto dos tentáculos sem terem decidido ainda para quem pertenciam.
Continuei.
A luz azul começou a desaparecer.
O olho dele mexeu primeiro.
Depois veio o tentáculo.
O Rei do Oceano descongelou e retomou o passeio.
Nada de captura. Nada de roda. Nada de explosão real. Só um polvo enorme voltando a nadar depois de passar alguns segundos parado recebendo tiros de R$1,00 na testa.
Ele alcançou o coral e sumiu.
Baixei o canhão para R$0,50.
O oceano imediatamente se encheu de peixes menores, todos muito valentes agora que o parente gigante tinha levado minha munição para fora da tela.
Capturei outro peixe-anjo. Um tamboril recebeu vários tiros, virou de lado e finalmente soltou algumas moedas. O valor cobriu três disparos daqueles que ele próprio tinha bloqueado durante a segunda passagem do Rei.
Depois foi embora com a serenidade de quem achava que tínhamos fechado um bom acordo.
Esperei o Rei voltar.
O coral de cima mexeu, mas era só um cardume.
O corredor inferior escureceu, mas trouxe outro Peixe-Anjo Gigante.
A roda não acendeu.
Frozen não reapareceu. A Railgun ficou muda. O Torpedo não tinha mais nada a acrescentar à história.
Dei seis tiros finais no trânsito comum.
Um atravessou água vazia. Dois acertaram um peixe-anjo que escapou. Outro bateu num tamboril e aparentemente melhorou o humor dele. Os dois últimos passaram atrás de um Peixe-Palhaço Dourado sem encostar.
Parei.
O canhão ficou apontado para o meio do oceano.
A roda de bônus permaneceu escura.
Um único Peixe-Palhaço Dourado entrou na mira vazia, virou o rostinho para mim e seguiu pelo recife sem dano, sem pressa e ainda protegido pelo Rei do Oceano.
Até o som de vitória de The Great Genie soa triste.

